Franca, 30 de julho de 2010
 
TAMBAÚ
SOB AS BÊNÇÃOS DO
PADRE DONIZETTI
           Nossa equipe de reportagem partiu de Franca para Tambaú afim de reportar sobre o ponto inicial do Caminho da Fé, roteiro que vem ganhando destaque no mapa do turismo, aliando aventura e religiosidade em um percurso de 425 km. Ao chegar, mudamos completamente a pauta inicial. A praça repleta de carros e ônibus conduzindo romeiros não deixou dúvidas que ali existia muito mais a ser relatado. Por conta da fama de Padre Donizetti a cidade, há 275 km da capital de São Paulo, tornou-se um dos destinos mais procurados pelos romeiros e está no topo do turismo religioso.
           Vale destacar algumas peculiaridades que fazem de Tambaú um refúgio especial para o turismo. A cidade abriga mais de 100 indústrias de cerâmica, é conhecida nacionalmente pela fabricação do produto e consagrada como uma das maiores produtoras de leite do interior paulista. Lugar de gente simples e hospitaleira, o visitante logo se sente à vontade para ouvir e contar histórias no banco da praça ou percorrer suas ruas cheias de ladeiras.
           Aqui e ali, o passado se faz presente, tanto na arquitetura colonial das casas, quanto no romantismo da ferrovia. Do ponto mais alto da cidade, avista-se o trem de carga que passa lentamente no pé da serra e some no horizonte. Durante a semana, Tambaú é um convite à tranqüilidade da vida no interior. Se a idéia é fugir do tumulto, de segunda a sexta-feira são os dias indicados para visitar o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, o túmulo e a Casa do Padre Donizetti.
           Nos finais de semana, a calmaria dá lugar a uma multidão de pessoas enfileiradas nesses pontos, considerados ícones da cura e altar de oração. Passados 44 anos da morte de Padre Donizetti Tavares de Lima, o município com 23 mil habitantes, recebe cerca de 30 mil pessoas por mês e tornou-se referência de um lugar onde se encontra a paz de espírito e remédio para doenças incuráveis.
 

Caminho da Fé

           Inspirado no milenar Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, o Caminho da Fé foi criado em 2003 unindo dois grandes centros religiosos: Tambaú terra do Padre Donizetti e o Santuário Nacional de Aparecida, santa de devoção do padre milagreiro. O percurso de 425 km abrange 19 cidades nos estados de São Paulo e Minas Gerais, cortando a Serra da Mantiqueira, num passeio inesquecível por estradas vicinais de terra, trilhas, bosques, pastagens e asfalto.
           No caminho, demarcado por setas amarelas que são uma sinalização universal, o peregrino vai reforçando sua fé observando a natureza privilegiada e superando as di?culdades, síntese da própria vida. ??Ele aprende que o pouco que necessita cabe na mochila e vai despojandose do supér?uo. Exercita a capacidade de ser humilde e compreenderá a simplicidade das pousadas e das refeições. Sobretudo, em cada parada, o peregrino estará contribuindo para o desenvolvimento econômico e social das pequenas cidades, propiciando a integração cultural de seus habitantes com pessoas de diferentes partes do mundo'', considera José Adilson Pieruzzi, presidente do Comtur.
           Segundo ele, para iniciar sua peregrinação pelo Marco Zero do Caminho da Fé, o peregrino pode adquirir a emissão da credencial no quiosque localizado no calçadão da Praça Padre Donizetti ao lado do Santuário Nossa Senhora Aparecida. Caminho da Fé

 
Mais conforto para os turistas
           No dia 16 de junho próximo, quando será comemorado o 44° aniversário de morte do Padre Donizetti, a pequena Tambaú deverá receber cerca de 35 mil ?éis. É nessa data que acontece a Marcha da Fé, uma homenagem ao padre milagreiro, que este ano completa sua 29° edição. Pela primeira vez na história do município, o poder público está empenhado em tratar o turismo como negócio e unindo forças para canalizar essa vocação como principal fonte geradora de emprego e renda.
           O projeto conta com a parceria do Sebrae/SP, Comtur, PDTR (Plano de Desenvolvimento do Turismo Receptivo) e da Associação dos Fiéis Seguidores de Padre Donizetti. Um dos objetivos é elevar a cidade à condição de Estância Turística Religiosa, feito que aumentará signi?cativamente o repasse de verbas para o município, mas que depende da aprovação da Assembléia Legislativa. Tão logo seja aprovada, será construído o terminal turístico de frente ao Cemitério Municipal, onde
está enterrado o corpo de Padre Donizetti. Enquanto isso não acontece, a prefeitura trabalha com o orçamento anual de cerca de R$ 10 milhões, tentando oferecer a infra-estrutura básica para bem receber seus visitantes.
           Sem comprometer as demais áreas de prioridade pública, a meta é centralizar o turismo religioso na réplica da Igreja de Nossa Senhora, em frente ao cemitério. Nela deverá ?car os restos mortais do padre e o memorial com seus pertences. Em médio prazo, o entorno deverá sediar um grande empreendimento, dotado de hotéis, estacionamento, lanchonetes e lojas de souvenirs. “De
imediato estamos empenhados em instituir um departamento com autonomia para administrar, fomentar e organizar o turismo religioso”, antecipa Edilson Faria, diretor do turismo local.
           Paralelo ao trabalho de conscientização da população, a administração está investindo na reestruturação de Tambaú. “O primeiro passo nessa direção é sinalizar e embelezar a cidade num todo, para impressionar e principalmente informar os visitantes”, salienta Faria. Segundo ele, o resgate à memória e a difusão da história de Padre Donizetti é urgente, por isso uma série de ações envolvendo a rede municipal de ensino já está em prática. “A nova geração desconhece a importância de seus feitos, não apenas como milagreiro, mas também como o líder que atuou em favor dos pobres e dos trabalhadores”, a?rma. Faria considera que o máximo a ser feito ainda será pouco diante das realizações do padre ao longo dos 79 anos de sua vida em Tambaú. `` O padre fez um trabalho maravilhoso nessa comunidade e temos a responsabilidade de retribuir , sustentando a fé que ele semeou'', conclui.
Quem é Padre Donizetti?
           Para responder prontamente quem é Padre Donizetti Tavares de Lima é preciso ter no mínimo 40 anos de vida. Ele chegou em Tambaú em junho de 1926, aos 44 anos de idade. Literário, poliglota, músico e devoto de Nossa Senhora Aparecida, o pároco logo conquistou a população local, da qual foi conselheiro, médico, advogado e líder absoluto. Não se sabe precisar o primeiro de seus milagres, mas seu nome ganhou fama em meados dos anos 50, quando os poderes de cura do religioso foram propagadas e Tambaú, com cerca de 5 mil habitantes, recebeu mais de 3 milhões de visitantes. Desde então, existem mais de mil depoimentos de milagres a ele atribuídos e todo santo dia alguém faz uma nova declaração, fortalecendo a crença que, ainda em vida, Padre Donizetti foi o verdadeiro “Servo de Deus”.
           “Ninguém contestava o que ele dizia, porque suas palavras eram sempre uma bênção”, afirma José Geraldo Zampolo, que presenciou a cura de um mal no seio de sua esposa e tornou-se testemunha viva dos poderes do padre.
           Seria preciso uma edição especial para contar as histórias de tantos milagres. Durante muitos anos a voz de Padre Donizetti anunciava o ângelus nas ondas do rádio. Todo dia às 18 horas era o momento sagrado de ouvir suas bênçãos. “Minha mãe colocava um copo com água ao lado do rádio e nos fazia bebe-la antes de dormir”, recorda Maria Elisa Rodrigues, que saiu de Araraquara em busca do líquido no túmulo do religioso que, além da capela, abriga o poço onde os fiéis acendem velas e fazem orações. “Basta algumas gotas sobre a face para aliviar dores e mal estar”, afirma José Mariano Dias, romeiro de Santo André. Assim como ele, a maioria dos visitantes banham-se e levam para casa um pouco da água que acreditam ser benta.
           Essa profusão de fé mudou a rotina dos moradores de Tambaú que, ao longo do tempo, aprendeu a conviver com os romeiros que chegam aos milhares, das mais distantes regiões do país, ora para pedir, ora para manifestar a graça alcançada. “Os devotos trazem fotos, cartas, vestes e pertences que catalogamos e arquivamos na casa do santo padre”, afirma Sonia Maria Teixeira Spiga Real, uma das 10 integrantes do Grupo de Voluntários Zeladores dos Pertences de Padre Donizetti.
           O trabalho desse grupo engloba também a tarefa de restauração e manutenção de tudo que está nos nove cômodos da casa onde morou. “Trabalhamos com amor e devoção, pois convivemos como o padre e testemunhamos seus milagres em vida e após a morte”, declara a voluntária Laila Restum de Santis. Não há exagero em suas palavras. Ao chegar em Tambaú, mesmo o visitante mais desavisado, logo terá conhecimento de inúmeras histórias postuladas às bênçãos do padre.
 
 
 
By Alsite