Franca, 30 de julho de 2010
 

terra de beleza e muito trabalho

          Carmo, é assim que nós a chamamos. É tranqüila, alegre, afetiva e cordial. É com muito orgulho que somos carmelitanos. Nosso produto artesanal segue conceitos de vida. Por amor e fé no trabalho refletimos quem somos. Se você busca identidade, tradição e modernidade, encontrou. São traços nativos de nossa cidade”.

          O texto acima foi produzido em um dos muitos encontros sobre capacitação para os artesãos da cidade de Carmo do Rio Claro. Sua gente sabe que esse é um dos pilares fundamentais para atrair gente de fora, gerar divisas para o município e sustento para esse povo que tece manualmente em teares de todos os tamanhos peças para decoração, não encontradas em nenhum outro lugar do Brasil. Mas quem por lá chega percebe logo que o Carmo tem ainda muito mais a oferecer. Privilegiada em sua posição geográfica, a terra foi dotada pela natureza de incríveis belezas. O turista mais desavisado diz que fi ca sem fôlego e emocionado diante das montanhas que circundam o município e de seu maravilhoso Lago de Furnas.
          A sensação de encantamento acontece assim que se chega àquela terra do Sul de Minas, com sua praça bem cuidada, ladeada de antigos casarões do século 19, até hoje muito bem cuidados. Parece até um presépio aos pés das montanhas, entre elas a mais famosa, conhecida por Serra da Tormenta, de onde se pode ter a melhor vista do lago, saltar de asa delta, subir pela estradinha de terra que muitos romeiros utilizam para chegar a uma capelinha construída no alto da montanha. Isso sem falar nas inúmeras achoeiras, como a da Alegria, Véu das noivas e Pedra Branca.
          O Museu do Índio, com grande acervo do início da formação do homem naquela região pede uma travessia de balsa – um passeio prazeroso sobre as águas do Rio Grande, que refl etem o sol ao entardecer. E os doces, então...A arte das compotas de pedaços de frutas com desenhos esculpidos à mão, os delicados cristalizados com nozes e os bombons de festa, mais parecem esculturas em miniatura.

          Conta-se que os portugueses que se instalaram em fazendas agrícolas naquela região do Carmo do Rio Claro, trouxeram os primeiros teares manuais de fiar, roca para enrolar o fi o e a arte de fazer colchas, tapetes e vestimenta em geral. Os primeiros fi os eram retirados de carneiros das pequenas criações que eram mantidas para esse fi m. Depois da tosquia a lã era transformada em fi os e tingida com pigmentos naturais. Essa arte foi passando de mãe para filha, través de gerações e se multiplicou por toda cidade. É difícil encontrar um carmelitano que não saiba usar o tear ou que não tenha alguém na família que o saiba. Difícil também é achar quem não sobreviva dessa arte secular.
          Foram as peças em tear que impulsionaram o turismo de compras da cidade e que hoje rende grandes negócios, participações em feiras nas mais diversas capitais e até a exportação para países da América Latina, como a Argentina e da Europa, como Escócia, Itália e Inglaterra. Mas para tanto, os tecelões necessitaram se organizar, aprimorar as matériasprimas e se capacitar a fi m de atender tamanha demanda.
          Foi assim que nasceu a Associação dos Artesãos de Carmo do Rio Claro, fundada em 1990, sob o incentivo do atual prefeito Ângelo Leite Pereira, eleito três vezes para o cargo. A artista plástica Maria do Carmo Soares, presidente da entidade, conta que hoje a associação congrega 28 artesãos, todos em atividade informal, que fazem compras de material e vendem a produção através da instituição. Lá também podem ser conhecidos e comercializados licores, doces, cerâmica vitrifi cada, bonecas e outros trabalhos manuais.
          “A riqueza da associação está no afi nco com que trabalham os seus associados. Muitos deles passam o dia no tear, desenvolvendo técnicas e materiais novos, afim de proporcionar estudo para os filhos. A criatividade deles não tem limite, a reinvenção é necessária para atrair cada vez mais o turista e o passado é uma fonte de inspiração”, diz Maria do Carmo.

          Foi também de mãe para filhas e entre as famílias carmelitanas que se aprendeu e desenvolveu a arte de fazer doces. As compotas de frutas – abacaxi, mamão, laranja, cidra, figo, entre outras – são as mais comuns. O diferencial está na apresentação: com uma fina faca bem afiada e até com um bisturi cirúrgico, as doceiras enfeitam o pedaço de fruta com pequenas esculturas. Um dos mais tradicionais vem da fábrica de Carlos Prado, elaborado pelas experientes mãos da doceira Fátima Maria de Carvalho que, claro, aprendeu a arte com gente de sua família, que já trabalhava em menor escala há gerações.
          A fábrica teve início em um barracão instalado nos fundos da casa de Carlos e hoje já emprega 16 pessoas, que trabalham nas mais rigorosas normas de higiene, obedecendo todas as recomendações da Vigilância Sanitária do município. A variedade fi ca por conta da fabricação de mais de 30 tipos de doces, que são vendidos para todo o Brasil. Atualmente, os planos são de enviar amostras para a Argentina, México, Rússia e Miami. Um diferencial que Carlos oferece aos seus clientes são os entalhes feitos com o nome de cidades que encomendam os doces, nomes dos noivos, que oferecem a iguaria nas festas de casamento e até com emblemas de empresas que repassam as compotas como brinde aos seus clientes. Outra fonte de renda que o empresário doceiro consegue extrair de sua fábrica de compotas vem dos cursos para quem quer aprender essa delicada arte da culinária.

Índios
no Carmo do Rio Claro

          Conhecendo o acervo do Museu Indígena “Katuaua”, formado e mantido por Antônio Adauto Leite, 78, em seu próprio sítio, temos a certeza absoluta de que os índios foram os primeiros a pisar naquelas terras. Através das peças, chegou-se à conclusão que os Tupis-guaranis fugindo dos portugueses, instalaram-se na região do Carmo. Lá ficaram por muito tempo. Há mais de 30 anos, Antônio Adauto encontra vestígios no quintal de sua casa que confirmam essa história. São machadinhas, pontas de lanças, adornos para o corpo, quebras coco, pilões, dentes e a peça mais interessante – a urna mortuária ou igaçaba em tupi-guarani. “Ao invés deles enterrarem seus mortos, a tribo os colocava em grande potes de argila e só depois cobriam de terra”, diz Leite. No Museu Indígena existem 15 urnas contendo restos mortais de índios.
          Tudo começou quando ele achou a primeira peça – uma machadinha – que foi estudada e guardada por ele. “Sou um autodidata, mas sei muito de antropologia e posso explicar peça por peça das centenas que tenho aqui. Sei, por exemplo, que algumas são de dois mil anos atrás”, explica ele.
          O próprio museu e suas aulas tão precisas ganharam fama e trouxeram estudiosos do mundo inteiro. Muitos querendo comprar suas peças ou transferir o museu de seu sítio. “Esse acervo não é meu, é do povo, portanto não posso vender e nem cobro entrada para quem quer conhecer o lugar, pois cada um desses achados conta um pouco da história do nosso município e da nossa gente”, enfatiza.

 
 
 
By Alsite